sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Quem se segue... ? - Parte 1


O mundo actual é um lugar que está numa constante mudança. Esta mudança que antes demorava centenas de anos, é hoje muito mais rápida, fruto da quantidade de informação que diariamente temos à nossa disposição. No mundo actual o homem esqueceu-se de si mesmo – perdeu a capacidade de viver – e adaptou-se à ideia de sobreviver. Neste clima de incertezas e de mecanização e globalização, o homem quase se tornou o autómato preconizado por Fritz Lang, no seu “Metropolis” de 1927. Sendo o ser humano o mais adaptável ser existente na natureza, “adaptou-se” desde cedo a ser comandado e não se comandar a si próprio. Daí ter inventado sistemas que lhe permitissem ser comandado e ainda por cima, gostar disso. Primeiro tivemos um sistema de chefes, que geriam as várias aldeias e castros. Os simples eram castigados, escravizados, mandados… e gostavam disso. Tanto, que só substituíam os chefes quando eles morriam. Depois os Egípcios vieram com uma ideia nova, em que quem mandava neles era um homem endeusado, a quem se deu o nome de Faraó.
Continuou a escravatura, o castigo, mas agora havia uma nova carta no baralho, e que era um enorme panteão de deuses. E o “manda-chuva” local ditava as ordens, conquistava (umas vezes mais que outras)… e quando morria era substituído pelo filho ou pelo irmão mais velho. Do outro lado do Mediterrâneo, contudo, aparecem uns chatos lá pela Grécia com outras novas ideias. Dão outros nomes aos deuses, e como acham que essa história dos filhos e dos irmãos mais velhos sucederem aos pais pode dar mau resultado, acham que devem entregar o poder às “massas humanas” e permitir-lhes que escolham com alguma liberdade, quem querem a representá-los. Claro que esse sistema, que era muito bonito e social, e que permitia que as pessoas não fossem escravos (claro, aqueles que tinham algumas posses, inteligência, dinheiro, etc… porque os de mais baixa condição continuavam a ser escravos e a trabalhar para os que mandavam), mesmo sendo muito bonito, tinha os seus problemas… os gregos pensaram… hei, nós inventamos isto, alguém há-de desenvolver o sistema, nós somos todos filósofos e sábios, os outros hão-de se arranjar… e vai daí, um par de irmãos, a chuchar cada um na teta de uma loba resolvem fundar uma república (Res Publica = a coisa pública) todos inspirados pelos gregos do outro lado do Mar Adriático. E pronto, começaram a desenvolver a coisa, até descobrirem que o poder era uma coisa para não ser partilhada, e que se devia centrar só numa das pessoas… e vai daí, um dos irmãos mata o outro e começa a mandar, rodeado de gente que é “eleita” pela populaça que manda (não os escravos, que esses continuam a trabalhar e a sustentar os outros todos…). E daí até ao período que vem a seguir, em que o manda chuva passa a ser um “imperador” e por isso está acima dos outros todos, vai um pulo. E aquilo que era “mandatado” pelo povo, pela tal democracia grega (Demos Kratia = A escolha do povo), torna-se numa ditadura imperial. O imperador manda, e o povo obedece. Não confundir com o Demos Gratia, que da religião falarei à parte… Voltando atrás, o tal imperador, que agora se chama “César”, é o tipo que manda, e conquista, e se livra dos inimigos com venenos e punhais… uns mais visíveis, outros menos. E claro, o que faz a malta toda que é a força do trabalho? Adapta-se a agradece a estes endeusados seres o que faz por eles… “Ó César, ainda bem que conquistaste a Gália para nós”…”Ó César, ainda bem que mataste os outros dois patifes que andavam contigo”… e quando as pessoas já começavam a estar fartas… toca de usar o mesmo remédio. Levas uma punhalada pelas costas, que até te lixas, e vai daí, trocam-no pelo filho… mesmo que seja bastardo. “Agora vai e manda em nós!” dizem os simples. E eles iam mesmo…
E aquilo com que não contavam, de repente, aconteceu-lhes. Quando andavam a conquistar a Europa, por um lado e por outro, chegam de repente a um cantinho onde uma “Aldeia” povoada por irredutíveis resiste ainda e sempre ao invasor. Não, não são gauleses… são lusitanos. E ainda por cima a sua principal característica é… não terem característica. Nem organização. Têm uma espécie de manda chuva, um pastor enfiado numa caverna, mas que afinal faz a vida grega ao César.
Ora, servido pelo seu espírito “democrata” o César pensa logo em substituir o pastor cavernoso, por um ao seu serviço… e assim arranja alguém disposto a fazer-lhe um favor, em troca de um posto no governo… só que este “boy” do manda chuva, não é do agrado do resto do “rebanho lusitano” e acaba morto pela populaça, que logo a seguir arranja um novo, a pensar que é melhor, mas que no fim de contas é mais um que vem ao serviço do César. E é assim que se vai perpetuando a permanência no poder.
Passadas umas centenas de anos, o sistema que já andava tão podre, acaba por deixar a aldeia lusitana cair em mãos árabes, que vem aproveitar o terreno. Com eles trazem a astronomia, a matemática, e uma série de obras novas, e a populaça fica deslumbrada. É preciso virem uns cavaleiros lá do norte da Europa para os “salvarem”. Esses nobres cavaleiros trazem consigo novas preciosidades, e um novo César… um cavaleiro que se destaca dos outros todos, mas que não fica satisfeito por só lhe darem uns terrenozitos e um título de conde. Vai daí, pensa “eu vou mas é mandar nisto sozinho”, zanga-se com a mãe e dá-lhe uns açoites, e funda um país novo, acima do rio, e chama-lhe Portucale. Manda uma mensagem ao gajo que entretanto é quase um rei como ele, mas que em vez de mandar num país manda nos espíritos de toda a gente, e a quem toda a gente chama “Papa”, mas a religião fica para outro dia, a dizer-lhe “Ah e tal, eu não quero cá misturas com os meus tios, nem com a minha mãe, e quero um país só para mim. Mas como a minha mãe não queria, eu mandei-lhe uma tareia, e agora sou eu que mando nisto, e quero que me trates por Rei Afonso I…”
Ora, com os ensinamentos dos castrejos, dos egípcios, dos gregos, dos romanos, dos árabes e dos pastores lusitanos o que fica? Uma valente salada. Uma mistura de tudo e de nada. Uma monarquia com aspectos de democracia, um imperador com ideias de endeusamento. E um enorme rebanho disposto a matar e a conquistar em nome deste engrandecido ser, que os comanda. Como o território começa a expandir-se, e só um a mandar é aborrecido, o Rei pede a uns quantos amigos (nobres, claro) que construam uns castelitos aqui e acolá e que metam as pessoas à volta deles a trabalharem que nem uns mouros (sem ofensa aos muçulmanos árabes que ainda havia pelo território), e a pagarem impostos e a oferecerem coisas ao Rei, para o seu proveito posterior… ah, esperem… afinal não. O que pagavam era apenas para os nobres se entreterem em festins e em torneios, enquanto os rebanhos à volta dos castelitos iam lentamente definhando e morrendo à fome.
Passadas umas centenas de anos, e uns quantos filhos, e irmãos mais velhos, há uma crise enorme, particularmente por causa dos descendentes. De um lado uma princesa casada com um Espanhol (livra, um gajo espanhol vir para aqui mandar…) do outro um tio que estava a ficar velho e ainda por cima era religioso (ai o tema a querer vir ao de cima…). No meio de um grande tumulto, a população toda a morrer da Peste Negra, e a nobreza a brincar ao quem sucede ao rei… vai daí, a populaça junta-se e aclama um burguês (que só ganhava um bocadinho menos que os nobres, mas afinal ajudava os rebanhos) e diz que ele é que é o Mestre que nos vai livrar dos tormentos… e qual salvador da Pátria, nasce uma nova dinastia, arrancada a ferros das entranhas da Ibéria, e que deixa os espanhóis a salivarem do outro lado da fronteira. Mas afinal, estes até eram duros, e mais uma vez, entre ideias e favores e por aí fora, lá vão mantendo o “barco” a navegar. E os barcos navegam até cada vez mais longe, pelas costas de África e pelo Brasil, já depois de assinado com os espanhóis, o tratado que lhes dava metade do mundo… ou tirava a outra metade para nós. E chegam à Índia. E livram-se dos monstros marinhos. E de acordo com os escritos da Época, “dão novos mundos ao mundo”. Quem diria… afinal os descendentes de pastores, com aparências de césares, e democratas como os gregos, endeusados como os egípcios, afinal iriam ter metade do mundo nas suas mãos. E uma sede de poder e de território como nunca antes vista. Então, finalmente, um rei novinho, cheio de ideias novas na sua cabeça, cheia de ar, vento e histórias de antepassados gloriosos, mete-se à frente das hostes e diz: “vou caçar mouros!” e parte para Alcácer-Quibir, onde desaparece envolto em misterioso nevoeiro… “hei-de voltar um dia!” gritou. E ainda se esperam notícias… E quem é que agora fica a mandar nisto? Pois é… os espanhóis. Os tais que mantiveram as garras de fora e souberam esperar. O rei do outro lado da fronteira, que era sobrinho neto de um rei da lusitânia, anterior ao rei novinho que desapareceu no nevoeiro, entra por aí dentro com as suas tropas, para evitar as insurreições do bando de rebeldes do lado de cá da fronteira. E ainda paga aos nobres nas cortes (que é como quem diz uma espécie de suborno aos lobbies, vamos lá…) para dizerem que isto é dele e que é ele que manda. “Este país é meu, porque o herdei, o conquistei e o paguei” afirma. E mete os do lado de cá na ordem. Principalmente, porque as ordens passam a vir do lado de lá. O que é que ganha com isso? Os lobbies começam a conspirar contra o neto do neto, porque ah e tal não se admite que a gente que fala outra língua se tenha de sujeitar aos imperadores aí do lado. E passadas só duas gerações, correm com os espanhóis e religiosamente oferecem a coroa à “Rainha dos Céus” (tema religião, ver depois.). E inauguram um novo estilo de governação. Mais à romana, menos à grega. Mais à egípcia, menos à castreja. Mas sempre à maneira lusitana. E é a partir daqui que as coisas se começam a complicar… mas para não tornar isto demasiado maçador, continuarei noutro dia…

6 comentários:

pinguim disse...

EXCELENTE!!!
Venha o resto...

Fernanda Antim disse...

:) Não podia ser melhor! Perfeito!(Não pude deixar de verter uma lágrima, tanto mais após um recebimento de um determinado e-mail que tive hoje....)
Beijos

sad eyes disse...

mt bom.

Mário F. disse...

Texto com ideias claras e bem estruturadas;foi a passada a mensagem e eu ganhei mais uns conhecimentos;muito bom, mesmo!!!
Fico a aguardar o restante;

Pedro de Santos disse...

Genial!

Rough Chef disse...

Obrigado a todos pelos vossos comentários... Estou a procurar uma maior regularidade nos meus posts e uma forma de continuar esta história :)